
Resenha:
O Negócio do Livro,
Jason Epstein. (RJ:
Record, 2002.)

Notícias de Marte
Diogo Mainardi
Jason Epstein é um dos maiores editores dos Estados Unidos. Nos anos 50, revolucionou o mercado americano lançando literatura de qualidade em brochura. A seguir, comandou a Random House, um dos colossos editoriais do país. No começo dos anos 60, fundou o jornal literário mais influente do planeta, o New York Review of Books. Na década de 80, publicou os clássicos da Library of America, uma idéia concebida vinte anos antes com o poeta W.H. Auden. Em O Negócio do Livro, Epstein recorda sua extraordinária carreira, analisando as mudanças ocorridas no mercado editorial no último meio século. Só tem um probleminha: nosso mundo é o oposto do dele.
Epstein fala, por exemplo, dos cinco grandes conglomerados multinacionais que abocanharam as melhores editoras americanas em tempos recentes. Esses conglomerados atuam em diversas áreas da indústria do entretenimento, como música, cinema e TV, e aplicam as mesmas estratégias comerciais a todas elas. Acontece que o livro é uma mercadoria diferente das outras, porque tem uma margem de lucro reduzida e é difícil massificá-lo. Sem saber o que fazer, os conglomerados teimam em concentrar todos os seus investimentos num punhado de livros de fácil apelo popular, mas eles acabam custando caro demais em termos de direitos autorais, o que diminui ainda mais a margem de lucro. O resultado é duplamente desastroso: a literatura de qualidade é sufocada por best-sellers e as empresas ficam no vermelho. O discurso de Epstein é muito interessante, ainda que pessimamente traduzido, mas é como se ele falasse de Marte, pois nada disso pode ser aplicado ao Brasil. Em vez de conglomerados como Bertelsmann e RCA, temos editoras de fundo de quintal, que funcionam de maneira amadorística, improvisada. Estamos mais ou menos onde os americanos estavam na metade do século XIX, quando viviam de piratear obras de autores ingleses. De fato, é raro encontrar uma editora brasileira que preste contas aos escritores estrangeiros que publica.
Em O Negócio do Livro, Epstein também enfrenta o tema da distribuição. Nas últimas décadas, quase todo o comércio de livros nos Estados Unidos se concentrou nas mãos de umas poucas cadeias varejistas. Elas levaram à falência as livrarias de bairro e reduziram o tempo de vida dos livros, que ficam cada vez menos nas prateleiras das lojas, porque o que importa para as cadeias é o capital de giro. No Brasil, como se sabe, é diferente. Aquilo que chamamos de livraria é, na maior parte dos casos, uma mera papelaria, que ganha a vida vendendo goma arábica, lancheiras de plástico e lápis de cor. O nosso atraso no campo editorial vem de longe. Gutenberg inventou a imprensa antes do descobrimento do Brasil, mas ela demorou três séculos para chegar aqui, impedida pelo autoritarismo dos nossos adoráveis colonizadores lusitanos. Ou seja, estamos na pré-história da indústria editorial, algo que não acontece, digamos, com a indústria siderúrgica ou com a dos frangos congelados. O mais curioso é que, segundo Epstein, o negócio dos livros, tal como o conhecemos, está com os dias contados. Embora ele considere livrarias virtuais como a Amazon.com inviáveis economicamente, não há como escapar da revolução digital, que vai reduzir drasticamente o papel das editoras e das redes varejistas. Esperemos que essa revolução não leve três séculos para chegar ao Brasil.
Publicada na Revista Veja em 01/05/2002.
Reproduzida com autorização do autor.

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