As Duas Virtudes de um Livro

Paul Valéry
(1871-1945)

Tradução © : Dorothée de Bruchard




Les Deux vertus d'un livre foi publicado por Stols em 1926, em Les Livres du bibliophile, com mais 3 textos, reunidos sob o título Notes sur le livre et le manuscrit. Também saiu no n. 1 da revista Arts et métiers graphiques (15/09/1927) e na Illustration n. 440 (10/09/1927).
Tradução originalmente publicada no Suplemento Literário de Minas Gerais, número 88, outubro de 2002.





Quando abro um livro, ele oferece aos meus olhos dois modos muito distintos de eu me interessar por ele. Propõe à função dos olhos dois usos alternativos.

Pode sugerir que eles iniciem um movimento regular, que se comunica e prossegue de palavra em palavra ao longo de uma linha, renasce na linha seguinte depois de um salto que não conta, e provoca em seu desenrolar uma quantidade de reações mentais sucessivas, cujo efeito comum é destruir a cada instante a percepção visual dos signos, substituindo-a por lembranças e combinações de lembranças. Cada um desses efeitos é o primeiro termo de algum infinito desenvolvimento possível.

Isso é a Leitura. Poderíamos dar-lhe por símbolo a idéia de uma chama se alastrando, de um fio queimando de ponta a ponta com, a cada certo tempo, pequenas explosões e cintilações.

Esse modo sucessivo e linear requer uma visão nítida, e a conservação dessa visão nítida — condição essencial para a produção dos atos elementares do cérebro, que respondem às excitações da escrita com sons virtuais ou reais, com significações.

A legibilidade de um texto é a qualidade que esse texto tem de se adequar à visão nítida.

Em referência ao que precede, podemos dizer que legibilidade é a qualidade que um texto tem de prever e facilitar o próprio consumo, destruição pelo espírito, transubstanciação em acontecimentos do espírito.

Mas em paralelo e à parte a leitura em si, existe e subsiste o aspecto de conjunto de toda coisa escrita. Uma página é uma imagem. Ela produz uma impressão global, apresenta um bloco ou um sistema de blocos e estratos, pretos e brancos, uma mancha com figura e intensidade mais ou menos bem resolvidas. Essa segunda maneira de ver, não mais sucessiva e linear e progressiva como a leitura, mas imediata e simultânea, permite aproximar a tipografia da arquitetura, assim como, há pouco, a leitura poderia ter lembrado a música melódica e todas as artes que esposam o tempo.

Assim, o Livro, por um lado, comporta o necessário para excitar e conduzir o movimento do ponto da visão nítida — movimento que gera efeitos intelectuais e descontínuos, e paulatinamente se integra em idéias ao longo da linha; é, por outro lado, um objeto, um conjunto de impressões estacionárias, dotado de propriedades imediatas, não-convencionais, que pode agradar ou desagradar aos nossos sentidos.

Esses dois modos de olhar são independentes um do outro. O texto visto e o texto lido são coisas muito distintas, pois a atenção dada a um exclui a atenção dada ao outro. Existem livros belos que não convidam à leitura, belas massas de puro preto sobre um campo muito puro, mas a plenitude e força de contraste, obtidas à custa das entrelinhas e que parecem muito rebuscadas na Inglaterra e Alemanha, onde procuram alcançar certos modelos do século XV e XVI, não deixam de pesar para o leitor e parecer um tanto arcaicos. A literatura moderna não se adapta a essas formas compactas, como que repletas de caracteres. Existem, em contrapartida, livros bem legíveis, bem arejados, mas feitos sem nenhuma graça, insípidos para a vista, ou até francamente feios.

Essa independência nas qualidades que um livro é capaz de ter permite que a tipografia se torne uma arte.

Quando ela quer apenas responder à necessidade simples de ler, dispensa os artistas, pois as exigências da legibilidade podem ser precisamente definidas, e satisfeitas por meios igualmente definidos e uniformes. A experiência e a análise serão suficientes para determinar o que é preciso ao gravador da letra, ao compositor e ao impressor para obter um texto claro e nítido.


Basta, porém, o tipógrafo tomar consciência da complexidade de seu trabalho, para se sentir na obrigação de ser um artista, pois o próprio do artista é escolher, e o escolher é comandado pelo número de possíveis. Tudo aquilo que deixa espaço para o incerto clama pelo artista, embora nem sempre o obtenha.

O tipógrafo artista encontra-se, diante de sua tarefa, na complexa situação do arquiteto preocupado em conciliar a conveniência e a aparência de sua construção. O próprio poeta tem por destino debater-se entre as formas e o conteúdo, entre suas intenções e a linguagem. Em todas as artes, e por isso mesmo são artes, a necessidade que uma obra bem realizada deve sugerir só pode ser gerada pelo arbitrário. O arranjo e a harmonia final das propriedades independentes que é preciso compor nunca se obtêm através de receita ou automatismo, mas de milagre, ou de esforço; através de milagres e esforços, conscientemente combinados.

Um livro é materialmente perfeito quando é agradável de se ler, delicioso de se mirar; quando, enfim, a passagem da leitura à contemplação e, reciprocamente, da contemplação à leitura é muito fácil e corresponde a mudanças imperceptíveis da acomodação visual. Os pretos e brancos constituem então repouso um do outro, o olho circula sem esforço em seu domínio bem disposto, aprecia o conjunto e os detalhes, e sente-se em condições ideais de funcionamento. Tal ideal só pode ser alcançado por meio da colaboração entre o gravador de caracteres e o tipógrafo. Em última análise, a forma toda deve decorrer do caractere. Esse último não pode ser puro fruto da imaginação. Sua figura, seus traços grossos e finos devem depender de sua espessura. Permito-me achar que é um erro reproduzir as mesmas figuras em diferentes escalas.

A arte do tipógrafo abunda em dificuldades sutis, em delicadezas imperceptíveis para a maioria das pessoas. No entanto, a ninguém ocorreu até agora censurar os mestres dessa arte por trabalharem com afinco para satisfazerem apenas uma elite quase insignificante. O que muitas pessoas negam a certos autores, a quem criticam por não escreverem para todo o mundo, concedem facilmente a artistas de outro tipo. Stendhal, contudo, não está muito longe de escarnecer o grande Bodoni. Quando passou por Parma, não deixou de visitar a famosa tipografia do grão-ducado. Bodoni consumia-se procurando a disposição ideal para uma página de rosto. Como ordenar a fachada pura que ele sonhava para um Boileau?

"Depois de me mostrar todos os seus autores franceses, ele me perguntou qual eu preferia, Telêmaco, Racine ou Boileau. Confessei que todos me pareciam igualmente belos. — Ah! O senhor não está vendo o título do Boileau! — Fiquei observando um bocado de tempo e acabei confessando que não enxergava nada de mais perfeito nesse título que nos outros. — Ah! Senhor, exclamou Bodoni, Boileau-Despréaux, numa só linha de maiúsculas! Levei seis meses, meu senhor, até encontrar esse caractere. O título está, de fato, disposto do seguinte modo:

OBRAS
DE
BOILEAU-DESPRÉAUX

"Eis o ridículo das paixões, em que, nesse século de afetações, confesso não acreditar."


Em suma, um belo livro é, acima de tudo, uma perfeita máquina de ler, cujas condições se definem com certa precisão pelas leis e métodos da ótica fisiológica; e é, ao mesmo tempo, um objeto de arte, uma coisa que, no entanto, possui personalidade própria, traz marcas de um pensamento específico, sugere o nobre desígnio de uma organização consciente e bem realizada. Observe-se que a obra tipográfica exclui a improvisação; é fruto de experimentos que desaparecem, objeto de uma arte que só guarda obras acabadas, rejeita esboços e esquemas, desconhece estágios intermediários entre o ser e o não-ser. Nesse sentido nos dá uma grande e temível lição.

O espírito do escritor se mira no espelho que a prensa lhe oferece. Se o papel e a tinta se adequarem mutuamente, se a letra possuir um belo olho, se a composição for cuidada, a justificação, deliciosamente proporcionada, a folha, bem impressa, o autor experimenta de um modo novo sua linguagem e seu estilo. Encontra em si mesmo acanhamento e orgulho. Vê a si mesmo revestido de honrarias que talvez não lhe pertençam. Julga ouvir uma voz muito mais nítida e firme que a sua, uma voz implacavelmente pura, articulando suas palavras, destacando perigosamente todas os vocábulos. Tudo o que ele escreveu de fraco, mole, arbitrário, deselegante, agora fala claro e alto demais. É um julgamento muito preciso e temível, esse de ser magnificamente impresso.

Direitos da tradução reservados:
© Dorothée de Bruchard, 2003
Reprodução proibida



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