Um Escândalo no mundo editorial

Jean-Jacques Pauvert


Tradução de Dorothée de Bruchard




Capítulo de La Traversée du Livre
Paris: Viviane Hamy, 2004.

Primeiro volume (cobre desde a 2a guerra até maio 1968) das memórias de Jean-Jacques Pauvert, editor polêmico, apaixonado, ímpar, que começou durante a guerra como vendedor na livraria Gallimard, e tornou-se o primeiro editor das obras completas de Sade, editor de Genet, Bataille, Boris Vian, Salvador Dali. Aos 79 anos, está escrevendo o segundo volume.






Em 1965, eu tinha tudo para estar, no fundo, satisfeito com a sorte apesar da complicação da minha vida pessoal — inerente a um certo tipo de vida. Mas um mal-estar indefinido não me deixava. Não, eu não estava tão satisfeito com a profissão que eu exercia, nem com o lugar que ocupava. Sem pensar muito no assunto, achava aquele lugar ostensivo demais, envolvido demais, em suma, com um certo "sucesso", e na verdade bem distante das minhas aspirações pessoais. Eu sentia que me embrenhara num caminho em que seria difícil parar.
Eu não queria pensar muito no assunto.

Começara a grande dança das casas editoriais compradas, encampadas, dos reagrupamentos esperados ou inesperados. Eu tinha escapado à retomada da Plon et da Julliard pelas Presses de la Cité. Estava sendo distribuído por Hachette — com todos os inconvenientes de uma mudança de distribuidor — mas continuava independente. O pior era que, como sempre, um burburinho de lamentações generalizadas se erguia na profissão: "Oh, meu Deus, como os livros estão difíceis de vender. O que vai ser de nós? Estão lançando livros demais, demais. O público está se cansando. É a crise." E cada qual jogava para o colega a responsabilidade daquele estado de coisas.

No início do mês de agosto de 1965, fazia um verão muito bonito, topei no boulevard Saint-Germain, flanando, com Pierre Démeron, redator-chefe do Nouveau Candide, um semanário publicado com muito custo por Hachette. Eu mantinha boas relações com Pierre Démeron. — Tudo bem? — Tudo bem. — Ah, que bem que nada, diz ele, não acontece nada no mundo literário, o que é que eu vou pôr nos próximos números?

Fiquei mordido: — É claro que você não pode mesmo falar do que está acontecendo no mundo editorial. — Mas o que é que está acontecendo? Ele se preocupa. — Acontece que os editores estão doentes. E deixo escapar algumas das minhas queixas. Interessado, ele escuta: — Você não poderia falar sobre isso abertamente? — Você é que não poderia imprimir. — Pode apostar, diz ele. E marcamos de almoçar no dia seguinte. Ele traz um gravador. Eu tinha um bocado de coisas entaladas, fui desabafando tudo.
[...]

Como relatar sucintamente um escândalo que sacudiu o mundinho parisiense durante tanto tempo? No Nouveau Candide, foram quatro números, por quatro semanas seguidas, bem no início do ano escolar, pouco antes de Frankfurt. Vou citar alguns trechos, pois afinal isso faz parte da minha história. E será que não continua atual, quase quarenta anos mais tarde?

Anunciadas na capa, duas páginas inteiras na seção LETRAS tinham por título: Às vésperas do início do ano literário, uma entrevista com Jean-Jacques Pauvert: A DOENÇA DOS EDITORES. (...) "Eles dizem que os livros não vendem, mas publicam qualquer coisa". (...) Pierre Démeron foi perguntar a Jean-Jacques Pauvert, um dos poucos editores surgidos durante a Libertação que tenha sobrevivido, e também um dos mais jovens e mais dinâmicos, o que pensar sobre essa famosa "crise editorial". Sua resposta decerto irá surpreender e escandalizar muitos dos nossos colegas.

Os editores têm feito declarações extraordinárias: "É, é terrível, a gente não tinha percebido, há uma crise editorial, 98% dos franceses só compram um livro de vez em quando. As bibliotecas públicas não são freqüentadas, o nível cultural dos franceses está deplorável, etc."

Pois eu acho que a situação geral da edição nunca esteve tão próspera. Vocês conhecem alguma outra profissão com tão pouca concorrência, tão poucos recém-chegados prontos a dar uma reviravolta no mercado e pôr tudo de cabeça para baixo? [...] E essas pessoas, que dobraram ou triplicaram seu faturamento em três anos, na maior tranqüilidade, sem temer a concorrência de um recém-chegado, é que estão gemendo!...
[...]

Não, não é a edição que está doente, são os editores. Os livros nunca se venderam tão bem, e se venderiam duas vezes melhor se não se publicasse qualquer coisa.
Para um editor livreiro, ou seja, um editor que tenta descobrir manuscritos, autores novos, existem duas políticas:


A primeira, a dos Gallimard, dos Julliard, dos Seuil, é pensar: "Quanto mais livros publicarmos, mais chance teremos de ganhar o prêmio Goncourt, o Femina, ou de descobrir uma nova Françoise Sagan." Um editor que aplica esta política e publicou em um ano, digamos, vinte romances, não pode, no ano seguinte, publicar menos que isso, quer a colheita tenha sido boa quer não, sob pena de ver diminuir o seu faturamento. É uma demência, ele é obrigado a praticar uma política de massa, de probabilidades. É claro que, de tempos em tempos, em meio à massa aparece um Le Clézio. Mas um editor que, entre cinqüenta romances medíocres, me oferece um Le Clézio, eu lhe dou os parabéns, mas não o admiro. Ele investiu bem o seu dinheiro, é só o que dá para dizer. Um editor que publica apenas três romances, dos quais dois são bons, isso sim é admirável. A Editions de Minuit, por exemplo, esse ano, praticamente não publicou nenhum romance...

Dei então alguns exemplos de bons livros que se vendem meio pouco: Roussel, Le Bain de Diane, de Klossowski. As pessoas que liam Proust em 1920, que liam Bataille há dez anos quando ele não era conhecido, que hoje descobrem Klossowski, serão sempre uma ínfima minoria. E prosseguia:

Perguntem aos livreiros, vão dizer o mesmo que eu: eles estão sobrecarregados. A profissão de livreiro está se tornando impossível. Consiste em abrir pacotes. [...] Um livreiro recebe, em média, trezentas novidades literárias por mês! A crise da edição está bem aí: na prateleira do livreiro que em vez de se perguntar: "Para quem é que eu vou vender os meus livros?", se pergunta: "O que é que eu vou fazer com todos esses livros insípidos que não interessam a ninguém?".

Se existe alguma crise, não é uma crise de vendas, é uma crise de superprodução. Se publicarmos duas vezes menos livros, vamos vender duas vezes mais.

Na semana seguinte, novamente um título para duas páginas: "Os que confundem indústria com edição", com destaque para uma declaração: Para mim, o trabalho de editor é um trabalho que consiste em recusar.

A principal chaga da edição francesa é que ela hoje é concebida, cada vez mais, pelos editores e pelos financistas que os sustentam, em termos industriais. Não é difícil ouvir os editores falarem em produção: "Produzimos tantos volumes este ano". "Não estão comprando a nossa produção, que está aumentando em 20%", "Nossas vendas baixaram em 17%".

Todo o mundo meio que esqueceu que na origem de um livro está a massa cinzenta do autor, e que na ponta da cadeia produtiva está a massa cinzenta do leitor.

E os editores estão sendo vítimas dessas expressões da indústria nas quais encerraram a edição, que fazem que um editor que tem 500 milhões de faturamento não pode se permitir faturar 450 milhões no ano que vem porque então ele estaria correndo para a ruína. Eles estabelecem o seu orçamento segundo um modelo de orçamento de indústria, fundado de um modo bastante infantil sobre a ilusão de que todos os anos eles descobrem um número x de bons autores.

O outro problema é que não existem mais autores. Você vai me dizer que nunca foram tantos os manuscritos se empilhando sobre as mesas dos editores. O fato é que manuscrito não é o que falta, mas pergunte aos leitores das principais editoras, eles dirão o mesmo que eu: a qualidade dos manuscritos não pára de cair.

Por que misterioso motivo passam-se por vezes vários anos durante os quais só se recebem um ou dois bons manuscritos, enquanto que certo ano de repente são quatro ou cinco? Quem saberia dizer? É justamente porque a edição obedece a leis que não têm nada a ver com as leis da indústria, com estatísticas, com previsões. Trata-se antes de uma produção do tipo "agrícola". Um ano cai granizo e temos menos vinho, no outro cai muito chuva e o vinho fica ruim, no outro há sol, e pouco vinho, mas esse vinho é excelente. Nada disso impede, evidentemente, os fabricantes de vinho de mesa comum, que são obrigados a produzir tantas garrafas, de comprarem vinho na Argélia e assim manterem sua produção. Em se tratando de livros, os fabricantes são esses editores de que eu falava, que se sentem forçados a publicar tantos livros de um ano para outro, qualquer que seja a qualidade dos manuscritos que recebem.

A edição francesa está sofrendo de falta de autores? Está sofrendo também de falta de editores. Pois os editores não parecem estar percebendo que os manuscritos que chegam a eles são ruins, ou então eles sabem mas não dizem, e tudo acontece como se eles não percebessem. A meu ver, está havendo uma demissão do editor. Dos autores de vinte anos — ou seja, maus escritores, pois ninguém é Rimbaud — que recebemos, 90% não tem a menor idéia do que seja literatura, do que seja escrever, nem nunca terá. Aliás, eles não querem trabalhar. O que eles querem é ser publicados. Por que é que eles trabalhariam, aliás, se sempre encontram um editor para fazer com eles um contrato de cinco livros?

Assim, você tem, de um lado, autores que não precisam trabalhar muito e, do outro, editores que estão prontos a publicar qualquer manuscrito, na esperança falaciosa de ter, daqui a um, dez anos, e de uma vez por todas, um bom autor.

[...]


Traduzido e reproduzido aqui com autorização expressa da editora.

Direitos da tradução reservados: © Dorothée de Bruchard, 2005
Reprodução proibida


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