Como tornar-se colecionador

Jules Richard


Tradução de Dorothée de Bruchard



"Comment on devient amateur" foi extraído de L'Art de former une bibliothèque
(Paris: Ed. Rouveyre et J. Blond, 1883).

O original francês deste excerto pode ser encontrado no site www.textesrares.com/biblio/rich13.htm



O aficionado no início é sempre inconsciente.

Ele compra para ler. Começa gostando do livro novo. É para ele uma inefável fruição ser o primeiro a introduzir o corta-papel num volume de que possui a virgindade. Mas essa fantasia passa logo para o aficionado de raça. Ele rapidamente se cansa desses prazeres fáceis que qualquer um pode obter por 3,50 francos numaa esquina de ruela. Ele precisa de mais. Quer ler seu autor favorito nas melhores condições para bem apreciá-lo. Quer tê-lo na primeira edição e, tanto quanto possível, numa bela encadernação de época. Se desse ouvidos a seu fanatismo de neófito, arranjaria um quarto com tapeçarias e móveis do período e, para ler Molière ou Racine, vestiria-se como um marquês da corte de Louis XIV.

Quem sabe? O exemplar que possui talvez tenha sido tocado pelo mestre. Se contiver uma dedicatória, não há possibilidade de dúvida.

Ter um livro de Molière em cuja página de guarda há uma linha de Molière, é um prazer que ninguém pode conseguir, pois os autógrafos de Molière são tão raros quanto os de Victor Hugo são muitos.

Os editores que, nesses últimos tempos, fizeram espécies de facsimilares, "restituições" — é assim que se chamam — de edições originais de nossos grandes autores, especularam com essa mania. Uma coleção das peças de Molière — edições originais —, certamente custaria, para ser reunida, entre vinte-e-cinco e trinta mil francos (o Sr. Henri Meillac possui uma). O Sr. Jouaust, a um só tempo impressor e editor, publicou plaquetes confeccionadas com bastante habilidade para criar ilusão nos bibliômanos sem instrução. A coleção custa cerca de cem francos e traz o maior prestígio ao hábil editor-impressor; mas um aficionado delicado jamais exibirá semelhantes imitações, por perfeitas que sejam, nas prateleiras de sua biblioteca, sempre irá preferir-lhes uma estimável edição menos pretensiosa, mas de extração mais correta.

Eis então que chega, para o aficionado neófito, o momento em que se apaixona por um autor, uma época, um ramo da literatura ou das ciências. É o momento crítico, o instante preciso — em que nasce sua biblioteca.

Um dos meus amigos, homem muito letrado e funcionário de um importante serviço administrativo, foi sagrado bibliófilo por um Horácio bem bonito, de preço suave, que encontrou por acaso num alfarrabista dos cais. Uma nota do Horácio em questão continha uma lição nova para o meu amigo, e o remetia a outra edição. Quis tê-la, e depois uma outra, acabou tendo seis, depois trinta, depois cem, depois mais ainda, incunábulos, elzevirs, edições inglesas, alemãs, que sei eu! Em suma, quando, tendo usufruído convenientemente de Horácio, quis se desfazer das cento-e-setenta-e-quatro edições que possuía, ficou sabendo que existiam mais de setecentas e cinquenta!

Sabe-se quando se começa uma coleção, nunca se sabe quando ela termina, nisso reside o prazer.

Antes de prosseguir e para ter a oportunidade de deduzir metodicamente os conselhos que quero dar ao neófito, vou logo dizendo que não deve jamais introduzir em sua biblioteca um profano, um beócio, um desses seres indiferentes e vulgares que Théophile Gautier desmerecia com o nome "boné de algodão".

Inevitavelmente, depois de percorrer suas estantes com um olhar baço e entediado, ele irá dizer:

"Biblioteca bastante completa; feliz escolha de livros; parabéns!"

Primeiro, fique sabendo esse imenso imbecil: não existe biblioteca completa. O catálogo dos escritos referentes à história francesa disponíveis na Biblioteca da rue Richelieu já soma quatorze volumes in-quarto; e não está concluído. Além disso, faltam na dita Biblioteca um bom número de obras muito conhecidas que ela poderia facilmente adquirir. Por outro lado, uma escolha de livros nunca é absolutamente feliz, pois o mais rico dos bibliófilos nem sempre compra o que quer, mas o que pode. E afinal, que importam os elogios de quem não entende do assunto?

O bibliófilo, ele sim, deve entender. E para aprender a entender, precisa de ferramentas.



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© Dorothée de Bruchard, 2001
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